domingo, 11 de setembro de 2016

Livro - Gente Casta

Peço que quem curte minha escrita aqui apoie a publicação de meu primeiro livro curtindo a página do projeto no Facebook:


O livro se chamará Gente Casta.



Eis um trechinho:

"Nenhum outro sentido é tão preguiçoso quanto o olfato. Assim que acordamos, abrimos os olhos e percebemos a luz entrar pela janela, vemos o parceiro a nosso lado, vemos o teto, as paredes e o armário, se os há. Também assim que recuperamos a consciência passamos a perceber os sons, o parceiro que suspira, o galo que canta, as folhas que se chocam, os cavalos que trafegam. Mal estamos acordados já a pele começa sua jornada de sentidos, é o lençol que acaricia a pele, a mão que esfrega os olhos, a perna da outra pessoa que roça a nossa, o beijo que, às vezes, nos desperta. Também o paladar dá notícia, é a boca que amarga, depois de uma noite toda com bactérias a reproduzirem-se entre os dentes, é o amargo da outra boca, aquela que nos despertou. Já o olfato continua a dormir, não percebe o cheiro que exala do corpo ao lado, não percebe o cheiro que o corpo a qual pertence emana, se recusa a dar pelo odor de sabão do lençol que nos acaricia a pele. Só quando saímos do quarto, e os vapores de urina e fezes da privada chegam nele, é que se põe a trabalhar."

domingo, 21 de agosto de 2016

A atriz do milênio (Sennen joyû) - 2001; revivendo o passado

A atriz do milênio (Sennen joyû), lançado 2001.
Um filme de Satoshi Kon.
Este belíssimo anime teve pouca visibilidade no ocidente (sejamos sinceros, como a maioria dos animes), ainda mais que foi ofuscado pelo excelente A viagem de Chihiro. No entanto é um filme que merece uma visita. Que ainda por cima é metalinguístico.

Um repórter resolve fazer uma entrevista a uma grande atriz, aposentada há trinta anos, de quem é muito fã. De frente para a câmera a anciã decide contar a real história por trás de sua carreira, que muito mais que um amor pela arte, é uma busca por um grande amor. Mas se não bastasse ouvir a história, o repórter e seu câmera são transportados para dentro dela, onde servem de espectadores mas também, eventualmente, desempenham papel ativo.

O mais lindo desse filme é o modo como é narrado. Misturando realidade com ficção e enganos da memória (afinal a grande atriz velhinha conta sua história num estilo Rose Dawson de Titanic), toda a vida da atriz e também boa parte da história japonesa são contadas. As memórias dela nos levam a cenários de sua vida real, cenários de filmes, e os rostos se confundem em sua memória, e personagens da vida real acabam servindo de "modelo" para a (re)formação dessas memórias deturpadas pelo tempo. No entanto, embora possa parecer o contrário, isso é feito de um modo que não atrapalha o entendimento da trama nem a fluidez dela. Embora, por vezes, de fato - creio que de propósito - não se sabe o que é real e o que é devaneio.

Isto também acaba sendo uma homenagem ao cinema e esse seu poder de fazer reais os sonhos e dar vida à imaginação.

Também é essa presença do cinema que nos acaba revelando tanto da história japonesa. Embora parte do que "aprendemos" no filme se deve a eventos reais (reais na trama), como a infância da atriz no pré II Guerra e o evento-chave que fez que seguisse a carreira de atriz e depois uma visita à sua cidade no pós-guerra; outra boa parte nos é ensinada pelos filmes que existem dentro do filme (filmes de época; um que tem samurais, por exemplo).

E claro, tem a linda história de amor e perseverança do enredo. E os aspectos técnicos, como o traço lindo (gosto de filmes em animação tradicional).

Confiram!